When it comes down to it, I suppose that I too believe that life is momentous and sad but not destructive of all hope, and maybe that makes me a self-dramatizing depressive, or maybe it makes me a happy idiot, but either way ‘Thunder Road’ knows how I feel and who I am, and that, in the end, is one of the consolations of art. [trecho de 31 songs]
[No fim das contas, suponho que eu também acredito que a vida é momentânea e triste, mas não destruidora de toda esperança, e talvez isto faça de mim um depressivo dramático, ou talvez isto faça de mim um idiota feliz, mas de qualquer modo ‘Thunder Road’ sabe como eu me sinto e quem eu sou, e isto, no final, é um dos consolos da arte.]
Em um de seus famosos seminários, o psicanalista francês Jacques Lacan afirmou que aquilo “que a cultura nos veicula como sendo o mundo é um empilhamento, um depósito de destroços de mundos que se sucederam”. Frase que relembra a relação entre os vivos – o mundo em que estamos inseridos – e os mortos – aqueles que deixaram a cultura como uma herança.
Na literatura contemporânea, talvez um dos autores que melhor conseguem expor esta construção da identidade a partir de destroços da cultura é o britânico Nick Hornby, conhecido especialmente por duas obras suas que foram adaptadas às telas do cinema: Alta Fidelidade (2000) e Um Grande Garoto (2002). Em pleno auge criativo, Nick Hornby é uma prova de que boa literatura não precisa ser literatura clássica, de que existem escritores atuais com um sentido muito aguçado para as inquietações humanas.
Dentre as suas obras, eu gostaria de destacar três, que formam uma trilogia nem tão óbvia: Febre de Bola, 31 Canções e Frenesi Polissilábico, publicados no Brasil pela Editora Rocco. Trata-se de três livros em que Nick Hornby reflete sobre como a sua vida pessoal e a sua identidade encontram alicerces no futebol, na música e na literatura. São livros de memórias, mas não por isso deixam de ser livros de crítica cultural. Em última instância, Hornby fala sobre a experiência de ser torcedor, espectador e leitor, de ser alguém imerso entre os destroços da cultura.
Ah, e o novo livro do Nick Hornby - Juliet, Naked - chega por setembro aqui no Brasil, com uma capa muito bonita, por sinal:

– Luciano Mattuella